Sobre

Se as liner notes de Asuna, disco assinado por Rasal.Asad, apresentam a música que vamos ouvir, o certo é que se referem também à editora e associação Thisco, responsável pelo seu lançamento. Aí lemos que se trata de «um organismo vivo de indivíduos que partilham a mesma ideia, perseguem o mesmo objectivo e obedecem a uma mesma lei interior» e que estamos perante «um processo de transformação cultural» e «uma apreciação, uma compreensão, da natureza esotérica da vida e da cultura».
 
Lemos que esta é «uma iniciativa destinada a modificar as nossas ideias sobre a realidade e sobre nós mesmos e a revolucionar as dinâmicas da existência». Que se procura «infectar as mentes», «alterar os comportamentos» e «redistribuir o poder». Estes propósitos definem desde logo um território de acção. Apesar da extrema diversidade estilística ou de género (techno, drum 'n' bass, ambientalismo, electro-rock, pós-industrialismo, experimentação livre, noise) do catálogo Thisco, o facto de se mesclar a estrutura social assim baptizada e os conteúdos artísticos que publica explica sobejamente a indissociabilidade da música ouvida em cada CD com o ideário que lhes está por detrás.
 
O acima referido Rasal.Asad é um projecto de Fernando Cerqueira, sendo outros activistas desta tribo electrónica Luís van Seixas (mentor da Sci-Fi Industries), Samuel Jerónimo, Paulo Rodrigues (Ras-Al-Ghul), Eurico Coelho (L'ego), Rui Bentes (Shhh...), Nelson Brites (Mikroben Krieg), o quarteto formado por João Gonçalves, Miguel Silva, Hugo Santos e Victor Silva (Waste Disposal Machine), os enigmáticos M. D'Arc, nRv e Tatsumaki (VortexSoundTech) e o ainda mais misterioso J. (Thermidor).
 
A lista continua com outros nomes menos assíduos na agenda de edições estabelecida ao longo dos 10 anos da Thisco comemorados em 2011. Esta vem abrigando as criações de todos eles, mas outras figuras da electrónica internacional os acompanharam, como Phil Von, Kazuyuki Kishino (KK Null), Lasse Marhaug, Masami Akita (Merzbow), Randy Greif, Francisco López, Alan "Anla" Courtis, Robin Storey (Rapoon), Terre Thaemlitz, GX Jupitter-Larsen, Jarboe (ex-Swans), Christophe Demarthe, Andrey Kiritchenko, Martin A. Smith e… alguém que vem deixando profundas marcas a nível conceptual neste colectivo, o escritor cyberpunk e artista sonoro / fonético Kenji Siratori.

 

A celebrada (ainda que polémica) estrela nipónica da escrita pós-dada e pós-surrealista que utiliza a linguagem da cibernética, os automatismos esquizofrénicos de Antonin Artaud e uma aplicação radical das técnicas de cut-up de William Burroughs e Brion Gysin é mesmo o ghost in the machine das músicas com selo Thisco.
 
É dele a voz que ouvimos no álbum Narcoleptic Cells, com o mesmo Randy Greif que triturou electronicamente o Alice in Wonderland de Lewis Carroll, mas se o princípio aplicado é o do género spoken Word, as frases que Siratori encadeia, como num mantra, têm significação ainda mais implodida do que é costume no ramo da literatura a que se vai chamando de bizarre, dados os processamentos operados. Em causa está, objectivamente, a transformação do humano numa entidade digital.
 
Kenji Siratori surge ainda no disco que acompanha o primeiro volume da revista Antibothis, mas a sua influência faz-se sentir também de outros modos. Por exemplo, via Jupitter-Larsen, presente em Electronic Thisturbance, sobre o qual escreveu o que se segue e que não me atrevo a traduzir: «GX Jupitter-Larsen upload the brain universe that compressed the acidHUMANIX infectious disease of a chemical=anthropoid to the biocapturism corpse feti=streaming circuit of this abolition world.»
 
O mesmo Siratori está de alguma forma na essência das osmoses do orgânico com o artificial de Milk Orchestra, resultado do encontro dos franceses Ultra Milkmaids com a belga Vance Orchestra, e da improvisação freeform com computador ‘acústico’ e guitarra eléctrica tocados pelo norueguês Tore H. Boe e pelo argentino Anla Courtis em Bløt og Mono Middagshvil.
 
Também o pressentimos nos feedbacks meta-metal ou minimal-noise de outro cidadão da Noruega, Lasse Marhaug, em Carnival of Soul, no bondage catártico e libertador de Dust of Dreams, do tipicamente japonês Merzbow, e na kosmische musik deturpada e muito, muito negra de Kosmo Incognita, registada por esse outro noisemaker do país do Sol Nascente, KK Null.
 
E é Siratori ainda que descobrimos na epilepsia rítmica de Fiery Silence, álbum do trio bracarense de neurofunk, VortexSoundTech, na banda sonora em permanente convulsão do espectáculo intermedia Os Ladrões do Tempo, do setubalense L’ego com o Teatro do Mar, no corrosivo e em permanente síncope Low Lights, do algarvio shhh...

 

Até nos paisagismos de cuidada laboração harmónica e recorte erudito de Rondas, por um natural da Nazaré, Samuel Jerónimo, e no nevrótico e intenso 6.Factor.EP, do projecto almadense Sci-Fi Industries, seguidor da máxima «no software used».
 
As sínteses cognitivas em curto-circuito de Kenji Siratori têm, inclusive, correspondência naquele que é um dos mais intrigantes lançamentos da Thisco, a colectânea Riyaz Master: Machine Readable Data Made in India / Part 001, organizada por um tal Future Ethnic Comparative Research Lab, nome de fachada para mais uma iniciativa de Phil Von, o bailarino de flamenco tão fascinado pela tecnologia numérica como pelas tradições do Médio Oriente e da Ásia.
 
As propostas musicais incluídas partem do conceito de etnocomputação, que é explanado como «o estudo das interacções entre a computação e a cultura», e designadamente do impacto dos computadores na sociedade e de como os aspectos sociais e históricos afectam «o desenvolvimento, a inovação, a difusão, a manutenção e a apropriação de artefactos e ideias computacionais».
 
A riyaz do título é uma tabla machine fabricada na Índia, e todos os 13 produtores europeus participantes, com designações techno como Servovalve, Supermatik, Mimetic & Data Senses, C-drik, DEF ou Sigmoon, este o próprio compilador, utilizam os seus 16 complexos padrões rítmicos, bem como os sons de outras máquinas não-ocidentais. O que resulta só não entra no domínio das ‘músicas do mundo’ porque o que se pretendeu foi, sim, «explorar as máquinas musicais do mundo» – neste caso, o meio (riyaz) não é a mensagem (world music), um bem-vindo glitch relativamente à norma.
 
É nas compilações da Thisco que encontramos a melhor aplicação das amalgamações discursivas de Siratori. Afinal, já se colocou na Internet a hipótese de este não existir fisicamente, não sendo a sua produção e a própria persona mais do que um embuste comunicacional forjado por um grupo de programadores informáticos.
 
Se a escrita do japonês é una, na maior parte dos seus textos só variando a ordenação das palavras, como se estas existissem num banco de vocábulos e o computador se limitasse a recombiná-las generativamente, a verdade é que, na sua catadupa de signos e ideogramas, mais parece que são vários os cérebros a falar a uma só voz.

 

Não os cérebros e a voz dos meat bags, como chamam aos humanos os Substitutos do filme Surrogates, mas os neurónios de silício da Artificial Inteligence e a glote robotizada do Natural Signal Processing.
 
É esse o efeito obtido pela junção de músicos com orientações e visões estéticas distintas, mas nunca tanto que não possamos confundi-los ou que as suas identificações deixem de ser importantes, consequência facilitada pela utilização de acrónimos ou de nomes tão vagos, tão impessoais, que apenas referem um circunstancialismo. É como se Izu + MTC e Wild Shores não fossem mais do que dois episódios apenas, dois momentos isolados na equação do caos, de algo muito maior e mais permanente. O siratoriano «brain universe»? Deus ex machina?
 
Thisoriented ilustra muito bem esta perspectiva. Por mais que se googlem os nomes Spies-Implant, Elektroplasma, Dither, Mimetic Data ou Sunwolf, cinco dos participantes nesta colecção de esboços electrónicos, a informação encontrada é nula ou remete-nos para outros âmbitos que não propriamente o musical. São como os atractores estranhos da teoria do caos, funcionando na qualidade de estados que especificam as dinâmicas de um sistema, pontos ou curvas num espaço em fase.
 
O facto de não podermos relacionar, por exemplo, a faixa protagonizada por Mimetic Data com qualquer outra música (outro sistema) como tal identificada, proporciona-nos uma imersão total nas lógicas internas desenvolvidas neste álbum.
 
Não é acidental, aliás, que o disco abra e feche com projectos que (re)conhecemos de outras audições, respectivamente Ras-Al-Ghul e Rapoon. Chegamos e partimos pela porta do reconhecimento, mas entretanto somos aprisionados num labirinto de electrões assombrado por um fantasma sináptico. Ouvimo-lo a rir, com sarcasmo e crueldade, na hardweb tecida entre as batidas e os hertzes.
- Rui Eduardo Paes

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